quinta-feira, abril 19, 2007

CARTAS NOTADAS

CARTAS NOTADAS
Há uns bons anos atrás esta aldeia padecia do mesmo mal que a maioria da sociedade portuguesa, a iliteracia. Desta forma, quando os mais velhos pretendiam escrever a alguém, recorriam à vizinha ou à amiga. Era um processo complexo que implicava um acentuado grau de confiança na pessoa que escrevia e esta, por sua vez, tinha o rigoroso dever de sigilo. Então, era frequente ouvir-se dizer: “Vou notar uma carta para o meu Júlio”; “Preciso de notar uma carta para a minha Ana, mas nem sei com quem vá ter. A Amélia é uma língua de trapo e a Graça nem tempo tem para catar os piolhos”.
De uma forma ou de outra, lá iam suprindo os seus deficits literários e enviando as suas mensagens. Estas, de um modo geral, baseavam-se nas vivências do quotidiano, acrescidas de uma ou outra questão social e, de quando em vez, uma ou outra fofoquice, não fugindo muito ao modelo que se segue:
“ Meu querido filho:
Espero que esta carta te vá encontrar de perfeita e feliz saúde. Nós por cá todos bem. Soube que tens tido muito trabalho e que te encontras um pouco adoentado. Olha, por aqui, as coisas também não vão muito bem: o frio é muito, as couves queimaram-se todas e há falta de pasto para o gado.
Não vês que a malvada da coelha pariu sete coelhinhos e matou-os a todos! O porco está a ficar bem cevado e, lá para o Natal, vai à faca!
O Manel da Zeza fala com a Teresa da Micas e parece que vamos ter casório! Já os viram a beijar-se em público! É uma pouca vergonha! Mal empregado rapaz para aquela sirigaita!
Ouvi dizer que o Carlitos da Mariquinhas vai para o seminário. Aquilo é que vai ser um tal padre!
Muito mais tinha para te contar, mas como o tempo escasseia…
Quando é que vens cá? Não estejas preocupado connosco! Não nos falta nada! Graças a Deus temos muitas batatinhas, muita hortaliça e ainda um naco de pá para comerdes quando vierdes. Faz hoje quinze dias que cozi o pão e ainda está fresquinho. Se calhar, vou ter que o cozer outra vez. Isto, se o moleiro não se esquecer de vir. Os salpicões do ano passado vendemo-los a dez notas o quilo e os presuntos a dois contos. Vê lá se não é um bom dinheirinho!? Olha, aqueles dois frangotes que cá viste são para dar ao médico, se ele der a baixa ao teu pai. Se não lixa-se e levo-os à feira que sempre renderão cinco notas.
Meu querido filho, despeço-me de ti com muitas saudades. Um abraço para ti e outro para a tua Maria. Diz-lhe que mandei um abraço para ela. Beijinhos para a Rita, para o Nuno e para o João. Diz também à tua vizinha que eu perguntei por ela. Não te esqueças! Que Deus vos abençoe a todos.
Até à volta do correio”
Pois, era assim mesmo. Vastas vezes, tive a honrosa missão de satisfazer o apelo de alguns desses notantes. Custava-me um pouco, devo confessá-lo, mas não podia nem devia deixar de o fazer. Tais missivas retratavam fielmente a vida de um povo: na sua forma de ser e de estar, nas suas condições de vida e limitações, nos seus projectos e ambições, enfim, em pequenos nadas que davam razão de ser à sua existência.

Anónimo

terça-feira, abril 17, 2007

HOMENAGEM


Há dias, quando caminhava pela rua e acariciava uma criança dos seus sete/oito anos de idade, esta, muito senhora do seu nariz e apontando-me o dedo, referiu-me:
- Olha que eu tenho um tio padre!
Esta expressão tocou-me particularmente porque eu também tive um tio padre e terei sentido o mesmo algumas vezes. Tratar-se-ia de uma manifestação de apreço, admiração ou afectividade? Seria o reconhecimento ingénuo de uma certa forma de poder instituído que ainda por aí vai proliferando? Fosse o que fosse, tal conduziu-me a uma reflexão mais profunda sobre a influência que os padres e as freiras tiveram nas gentes desta terra. Quantos não foram “mimados” por estes? Quantos teriam a formação académica que têm? Quantos não foram colocados no mercado de trabalho? Pois é, isto são realidades insofismáveis e das quais tão boa gente se esquece. Pela parte que me toca, não lhes estou minimamente reconhecido. O único caso de gratidão de que me lembro foi a eminência de uma expulsão do Colégio de Lamego com o beneplácito desse meu tio que até era padre. Dever-lhe-ei estar agradecido por isso? Talvez sim! Poderá ter sido o primeiro passo para eu aprender a crescer sozinho. Mas, independentemente deste particularismo, para bem ou para mal, a influência dos padres e das freiras, dos tais tios e tias, foi decisiva na sociedade local. Se lhes devem estar gratos ou não, isso é do foro pessoal. Para mim, esta interferência, ainda que bem intencionada, foi limitativa em termos do desenvolvimento individual. Coarctou imenso a capacidade de iniciativa e criou em muitos um espírito de subserviência e acomodação. Estabelecendo uma comparação com os povos vizinhos que não sofreram estas influências, verificamos que estes dispõem de melhores quadros e de um maior sentido empresarial, não se limitando aos professores primários e enfermeiras que tal contexto criou. Trata-se pois do verdadeiro reflexo de uma educação, de certa forma monástica, a que a igreja sempre se dedicou. De qualquer das formas, estes tios e tias que um dia fugiram às agruras da vida e à miséria, tudo fizeram para que outros as não tenham sentido. Por isso, e só por isso, eu lhes rendo a minha homenagem.
Bravos, bravos!

Anónimo

sábado, abril 14, 2007

Meu caro Zé:
É sempre com grande agrado que leio os teus artigos. A lenda da alcateia, agora recriada por ti, com novas personagens, mais uma vez me fez regressar aos tempos em que já meio a dormir meio acordado me tentavam convencer de que se me portasse mal os mesmos lobos me iam aparecer.
Hoje vejo com agrado o teu apelo à união e participação de todos, na ajuda que possamos dar aos autarcas, para que também eles se sintam acarinhados e apoiados pelos incentivos que de todos nós possam receber.
Concordo contigo, sem contudo querer dizer que se deva a tudo dizer que sim, quando não se concorda, mas se a critica for construtiva também ajudará os nossos autarcas a melhorar o que possa estar mal.
O tempo das pessoas aceitarem tudo, alegando que primeiro nada havia, e agora já temos isto ou aquilo, mesmo sendo fraquinho, já lá vai.
Temos por obrigação o dever de não nos calarmos àquilo que está mal.
Parece-me lógico que se possa e deva enaltecer o trabalho desenvolvido por esta Junta nos últimos tempos na Póvoa. Merecem de todos nós uma palavra de incentivo, mas também requerem de todos nós uma critica naquilo que mesmo fazendo melhor que aquilo que estava, ficou mal. Devemos por isso denunciar e exigir as reparações das coisas mal feitas.
O Sr. Presidente da Junta, (que muito considero), finalmente e após anos de espera por parte da população, mandou fazer aquela obra no cemitério, que considero de muita utilidade e por isso merece também aqui ser referenciada. Mandou ainda calcetar a rua que vai do fontanário ao tanque de lavar, mais uma boa obra, só que esta com erros demasiado grandes para que se possa deixar passar sem ser denunciada Não sei se já reparou ou até se já exigiu a respectiva reparação por parte do empreiteiro, mas nesta obra as coisas não ficaram bem. O Sr Presidente já passou por lá para ver os desníveis que ficaram agora em relação aos que havia primeiro, na entrada de algumas casas? Aconselho-o a passar por lá e ver que há casos de desníveis superiores a 30 cm. Penso, Sr Presidente, que o Sr não aceitaria um trabalho daqueles, junto a uma casa que fosse sua. Tenho a certeza que imediatamente mandaria levantar todo o chão e exigiria ao empreiteiro que fizesse as coisas profissionalmente. O empreiteiro que fez aquele serviço tem a obrigação de o reparar e o Sr o dever de exigir uma obra que seja benéfica para todos sem contudo prejudicar ninguém. Só assim haverá democracia, mais ainda quando os dinheiros para estas obras são públicos, e não de um qualquer particular. Sr Presidente passe pela Póvoa e veja o serviço que está feito, e verá que tenho razão no que digo e depois diga-me, se aceitaria ficar com uma obra daquelas, junto à entrada de uma casa sua.
Já que estamos a falar de obras, e porque o apelo já aqui foi feito, e mais uma vez foi agora aflorado pelo Zé Costa, gostaria também eu de lembrar a todos a necessidade de unirmos esforços com vista à reparação do tecto da nossa capela, até porque esta parece ser uma obra urgente e que não vai poder esperar muito mais tempo, nem esperar que os apoios estatais cheguem.
Como todos sabemos este tipo de donativos entram nas deduções dos benefícios fiscais do IRS.
Um abraço para todos.
Jorge Venâncio
APELO ( por Zé Macário )

Acolhi com a maior boa vontade e com as melhores perspectivas o convite para participar activamente no bloog da Póvoa.
Imaginei-o imediatamente como um óptimo veículo de cruzamento de ideias e principalmente de intercâmbio com o poder autárquico, disponibilizando-lhe um melhor conhecimento das nossas gentes, e solicitando a realização das obras necessárias à satisfação das necessidades básicas das pessoas e também ao embelezamento e fluidez de trânsito auto na aldeia da Póvoa.
É por exemplo possível, com reduzidíssimos gastos, a passagem de automóveis em todas as ruas.
Assim, foram nesse sentido alguns dos primeiros artigos que escrevi, entendendo a necessidade de criar um clima de conhecimento e convívio com os referidos autarcas. Pensava eu que atrás de mim, outros e outros se seguiriam reforçando estes princípios, e não deixando em mim o ónus da saturação, pela repetição. Parece-me que, esta acção que teve um óptimo inicio, que levou até à organização da primeira festa convívio, cedo se deixou enfraquecer ou ficar pelo caminho.
Não podemos esmorecer e aguardo com ansiedade que também outros retomem este caminho.
É um apelo! Temos que nos unir aos elementos da junta de freguesia e formar com eles um coeso grupo de amigos que, muitas vezes se encontrem e algumas celebrem.
Se todas as nossas vivências têm de ser estimuladas para se manterem vivas, também as dos autarcas têm as mesmas necessidades.
Estimulemo-los pois, testemunhando-lhe a nossa amizade para além do exercício das suas competências.
Teremos de arregimentar para esta causa também, o Reverendo Pároco, como director espiritual que é desta comunidade, dado que para a causa dele (a restauração da capela) já todos estamos conquistados à partida.

quinta-feira, abril 12, 2007

A lenda da alcateia

Tem séculos esta história, contando-se puída de repetida, nos serões das longas noites de Inverno à volta da lareira entre as diversas histórias de terror, de lobos, de lobisomens, bruxas e feiticeiras, que embalavam, encantavam e atormentavam a minha meninice:

É da Póvoa o Albino e de Parafita a Carminda, sua conversada, por quem aliás morre de amores…
É tempo de recolha do milho – base de sustentação das gentes deste tempo – e há desfolhadas e debulhas em Parafita.
Na Póvoa, noite alta, e já na cama deitado, debate-se a imaginação de Albino entre o amor ciumento e o medo de atravessar aquela serra árida e solitária, toda povoada de lobos e perigos vários…
Não, não podia deixar que naquela desfolhada a sua Carminda pudesse, longe de si, ser abraçada por um qualquer rapazola cobiçoso e atrevido, que tivesse a dita de encontrar uma espiga de Milho Rei.
Afim de evitar alarmes em família, colocou em seu lugar, na cama, um pequeno molho de canas que, coberto com os lençóis e cobertores, configurava o próprio corpo, garantindo assim a sua presença, fictícia, em casa.
Sorrateiramente cobre o capote, sai de casa e põe-se a caminho de Parafita com o coração ardente de paixão pela sua amada.
Tendo só por companhia as cintilantes estrelas – que nessa noite tinham mais brilho – avança resoluto por ermos e áridos caminhos, assaltado muitas vezes pela visão imaginária de perigosos fantasmas .
Também o padrinho que na Póvoa mora perto de si, é assaltado por pesadelos medonhos, com a visão sonâmbola de um ataque de lobos ao seu afilhado.
Indo alarmado a casa da comadre perguntar pelo afilhado, esta sossega-o com a exibição do vulto das canas que , na cama, parecem o seu Albino. Enquanto isto, Albino avança no caminho a passos largos.
O padrinho não conciliava o sono e o sono não conciliava a sua tranquilidade…
Perante um segundo e um terceiro pesadelo com a visão dos lobos em fúria, o compadre volta a casa da comadre e então descobrem o engodo do molho das canas.
Por esta altura, o Albino irá para lá do cruzeiro do padre Justino, já muito perto das apertadinhas.
Descoberto o engodo, e perante a aflição do padrinho, com toque de sino a rebate, meia Póvoa se levanta e corre solícita no encalço daquele.
Junto ao cruzeiro de Parafita, Albino é atacado por sete lobos esfomeados… luta enquanto pode, destribuindo sacholadas, para afugentar os bichos…
A caminho e já nas apertadinhas, as pessoas da Póvoa ouvem os gritos e a luta de Albino…
Bem lhe gritam ainda, ânimo! Coragem ! Aguenta-te ! Larga perro! Era porém tarde demais, e quando estes amigos chegaram perto do cruzeiro de Parafita, já Albino tinha sido todo comidinho pela alcateia que, só deixara como vestígios os pés, dentro do cano das botas .
Carminda guardou luto até ao fim da vida, e para ali vinha todos os dias guardar as ovelhas, e, debroçada no penedo junto ao local onde Albino se foi, todos os dias carpia lamentos, que com o tempo, se tornaram numa canção-lamento.
Lá está ainda o penedo, polido, sem musgo, e , garanto-vos, que sempre que ali passo, encosto-lhe o meu ouvido, e é perfeitamente audível aquele dorido e terno lamento.
Também nas águas do rio que ali correm bem perto, e que em tempos testemunharam a tragédia, se ouve em doce múrmurio a bela canção dos amantes, celebrando nupcialmente o seu reencontro no céu.

segunda-feira, abril 02, 2007



Agradecimento ao Grupo Coral da Igreja de Santa Maria de Agualva

Eu, celeste Gonçalinho de Oliveira A. Duarte, quero aproveitar este meio de comunicação para publicamente mostrar a minha gratidão para com o jovem Grupo Coral da Igreja de Santa Maria de Agualva, pelo facto de ter interpretado instrumentalmente e com as suas belas vozes, a letra e música dedicada à Virgem do Pranto, que eu com algum esforço mas sem conhecimentos técnicos musicais, consegui realizar.
Gostei muito do vosso desempenho!
O meu muito obrigada a todos vós os que colaborastes de boa vontade neste meu modesto trabalho, especialmente ao Ricardo Santos "coordenador do grupo"a quem fiz o pedido.
Que a vossa vida vos sorria e se complete de melodias de Paz de saúde, alegria e de todo o bem.


Celeste Gonçalinho de Oliveira A. Duarte

sábado, março 31, 2007

A PÓVOA NA PÁSCOA



A minha saudação aos residentes e aos da diáspora!
Quem visita a Póvoa pela Páscoa, em dia de visita pascal, e eu vou ter este ano essa dita, fica com a sensação de que esta terra não tem limites, é um tempo sem hora, uma luz que não se apaga, mesmo soprando o vento ou a chuva desabando. Ela é o torrão natal, o berço amigo que a todos atrai. As casas alargam-se, os tectos alteiam-se. Há lugar para todos: os familiares, os vizinhos, os amigos. Trocam-se beijos e abraços, recordam-se momentos passados. As flores de alecrim emergem dos muros das casas de pedra como setas, não de ameaça, mas como anúncio de festa, porque o visitante agora é o Ressuscitado.
O chefe de família dá a cruz a beijar. Todos se perfilam em alegria transbordante. As crianças regurgitam de são contentamento, e os mais velhos enternecem-se com a sua meiguice. Que é a Póvoa afinal?
Creio que são três, os espaços da Póvoa real, assim enumerados:
- O “espaço físico”. Esse é o único que pode delimitar-se, e de há muito, dada a sua riquíssima história. Tem os confins geográficos, abarca os campos, a serra, as habitações e logradouros, mas também o sol puro e dourado, o ar límpido e a água cristalina.
- Mas o “espaço social” em muito que sobrepuja o físico. As pessoas saíram, investiram, realizaram sonhos, escolarizaram-se, fizeram opções de vida, propagaram-se, socializaram-se, inculturaram-se. Criaram-se amigos longe da terra e até da Pátria, cruzaram-se destinos. Hoje, trocam mensagens gráficas ou telemáticas. Escrevem, lêem e pronunciam-se. Em suma, poderão estar distantes, mas estão sempre perto, numa proximidade que os identifica.
- O “espaço psicológico”. Este é o mais misterioso. Quem ousa retirar o afecto à “alma mater”, quem poderá desligar alguma vez o fio da comunicação telúrica? Este aspecto das vivências, das experiências de vida, das histórias mais poéticas, hilariantes ou dramáticas, é que define e identifica a verdadeira Póvoa. O que mais une não é a terra, mas o sangue, não é o riacho ou a fonte, mas os sentimentos que jorram ou se silenciam, os laços de família, o coração forte e generoso moldado pela natureza humana e divina. Acresce ainda a base religiosa que o poveiro transporta, partindo e regressando, sempre com sonhos na bagagem.
Termino com uma evocação à Terra-Mãe-Póvoa. Mãe não morre nunca! Ela ficará sempre junto de seus filhos e eles, idosos embora, serão sempre pequeninos, sem os limites estratificados da idade, que parece ser uma única, a olhar o céu. Ressuscitemos todos para a amizade e para a vontade de sermos felizes.
Uma boa Semana Santa e Páscoa Feliz e bom regresso à terra natal dos poveiros na diáspora.
Pe. Assunção

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Iniciado em 2005, este blogue cumpriu em parte, aquilo para que tinha sido inicialmente projetado. Com o decorrer do tempo e tal como n...