segunda-feira, janeiro 22, 2007

Hino à Senhora do Pranto

Senhora do Pranto,
Sois para nós a única libertação
Para o faminto o fragmento de pão
Luz na nossa caminhada e encanto
Sois presença na nossa solidão,
Por isso evocarei Vosso nome Santo!

São Vossos olhos constelações,
Que se expandem no universo infinito,
Onde brilham como tesouros de amor bendito,
Dando luz à cegueira dos nossos tristes corações
E conforto à dor humana em seu impetuoso grito,
Nos abismos das suas desilusões!

Vossas mãos são duas palmas
Serenas suaves e alvas,
Que evocam as do martírio, da Paixão
As que tranquilizam nossas almas,
Tal como as de Cristo acalmaram as águas,
E fizeram o milagre do pão!

Alegram Vosso vestido singelas rosas,
Em cor vermelha rubi,
As mais belas as mais Formosas
As mais perfumadas que já vi
As mais alegres e ditosas
Do mais original que conheci!

Celeste Gonçalinho Oliveira Duarte

quinta-feira, janeiro 18, 2007

Recordações




Teria menos de cinco anos quando o meu pai me levou pela primeira vez às pútegas. Teria a mesma idade quando me ensinaram a conhecer e descobrir sanchas e gasalhos. Teria um pouco mais de idade quando comecei a prestar atenção à idade do gado através de um exame aos dentes; ver se um animal ainda era novo e se estava ao primeiro, ou se já mais velho e estava a cerrar. Por esta altura aprendi a ver se uma vaca tinha formigueiro nos cornos ou se teria mosqueiro na pele.
Apreciava como a minha mãe lavava minuciosamente a loiça com carqueijas.
Por estas idades já me ia embalar no berço da moira, ou ainda, inspeccionar a pedra da galha para tentar descobrir vestígios do pote de ouro deixado pelos moiros quando da sua fuga, mas sempre com muito medo de ser surpreendido pelo pote de veneno que se supunha estar dentro, para confundir. Foi ainda por esta idade que conheci e comi os queijapões.
Porém a minha nostalgia revela-se mais na idade escolar em que ajudamos a construir uma bicicleta de madeira para o Fausto, ou comíamos os ovos cozidos do Manel d`Amblina, depois de lhe termos provocado o enjoo com o pretexto de a mãe dele os ter cozido na labaige dos porcos.
Foi na minha terceira classe com a Dona Natividade, que eu vi pela primeira vez uma esferográfica ( bic cristal) que a mãe do Fausto lhe mandou de Lisboa, e que escrevia a tinta, sem borrar o papel – parecia inacreditável, até para a professora!

Zé Macário


Os homens estão loucos

Na Póvoa, lembro-me bem de que enquanto garoto, quando
alguém partia para longe, como por exemplo para o Porto ou Lisboa, ia de casa em casa despedir-se de toda a aldeia, receber algumas recomendações dos seus conterrâneos e eventualmente algumas moedas para a viagem, ou para a sobrevivência dos primeiros dias.
Também quando havia a percepção de que qualquer pessoa iria partir para o além (morrer), alguém ia para junto do leito desse vizinho fazer-lhe as últimas recomendações e ler-lhe o livro da agonia. Havia alturas em que o agonizante já não ouviria nada nem ninguém, porém na dúvida, as recomendações continuavam e a leitura também.
Quer isto dizer que, acreditando-se numa continuação da vida do outro lado, preparavam-se as pessoas para a dignidade da chegada.
Vem-me isto à ideia a propósito da “dignidade” que hoje uma certa propaganda faz da eutanásia, isto é, ao matar as pessoas dizem ajudá-las a morrer com dignidade. Que estranha dignidade esta!
Vem-me ainda isto à ideia a propósito do referendo à liberalização do aborto em nome dos liberais, ou talvez dos libertários direitos da mulher.
Desde há muito tempo a esta parte, partidos políticos e outras associações, normalmente os maiores paladinos dos “direitos humanos” têm coisificado e objectificado a pessoa, retirando-lhe toda a dignidade em nome da dignidade que dizem conferir-lhe, ou que falaciosamente lhe atribuem.
Desde a banalidade das execuções de condenados, para satisfazer os mais primários instintos de vingança em alguns países, até à liberalização do aborto em outros, ou ainda à discussão sobre a eutanásia em que recorrentemente querem envolver-nos, tudo isto não passa de um regresso à mais remota barbárie.
Se nos chocava o relato da matança dos inocentes perpetrada por Heródes, Como poderá deixar de nos chocar o referendar do direito à liquidação da vida nos tempos que correm?
Que saudades eu tenho da forma vibrante como a minha professora primária nos transmitia carregada de orgulho, que os Portugueses tinham dado grandes lições de civilização ao mundo, ao ser os primeiros a abolir a pena de morte!
Tanto quanto julgo saber, na natureza, a matança entre indivíduos da mesma espécie, só acontece por motivos de sobrevivência da própria espécie.
Não consigo perceber como seremos capazes de estratificar em socalcos, por idades ou por outra razão qualquer, o valor da vida da pessoa, sabendo-se até, quanto o facto da existência de uma só pessoa pode mudar o curso de toda a humanidade. Porque o homem tem em si mesmo esta dualidade, de ser dotado da mais ínfima pequenez e da maior das magnitudes.
No entanto, segundo um princípio de corresponsabilidade universal, nada daquilo pode acontecer perante o meu silêncio, ou então tenho de me questionar pela conivência com esta barbárie.


Zé Macário

segunda-feira, janeiro 15, 2007

Um canto à Virgem da minha terra

Ó virgem do Pranto
Ó minha bela Senhora,
Se não fôreis Vós quem fora,
Que com seu suave manto
Envolveu a dura vida de encanto
Tornando-a leve e promissora?!

Ó Virgem de sereno e pálido rosto
Porque Sois tão triste assim?
Chorais por Cristo ou por mim,
Porque Ocultais em Vossa face o luar de Agosto,
Porque é Vosso gesto um sol já posto,
Porque não mo Revelais por fim?!

Ó Virgem de Santa Cruz,
Compreendo agora o Vossa dor,
Assim, vá eu para onde for,
Levar-vos-ei como minha Esperança e Luz,
Tal como o são a água e o sol para o semeador
Da mesma forma que o Foste para Jesus!...

Ó Virgem da minha terra,
Abraçai-a por mim, que eu não posso,
Já que para isso basta um gesto Vosso,
Enquanto eu, humilde filha da serra
Esboçarei, numa simples tela
Um terno sorriso em Vossa face como gosto…

Celeste Gonçalinho Oliveira Duarte

domingo, janeiro 14, 2007

CAPELA E PARÓQUIA (Por:P.Assunção)




Da Etimologia à Teologia

Habituados como estamos, por rotina, a entrar na Igreja Paroquial, cujo interior se apresenta nesta foto ou na capela da Póvoa, exposta em vários lugares deste blog, presumir-se-á que todos os paroquianos saibam a origem das palavras “capela” ou “Paróquia”. Dirão mesmo: claro que fui baptizado na paróquia de Vila Nova de Souto d’El-Rei e a minha aldeia tem uma capela muito bonita, que é a capela da Póvoa. Mas nunca me dei ao cuidado de procurar saber essas questiúnculas.
Na era da Internet, somos estimulados a abrir os nossos horizontes ao passado e ao futuro, porque cada vez somos menos “ilhas” isoladas, para navegarmos todos no mesmo vasto oceano de ideias. Não percamos o rumo nem abandonemos o leme, para não nos diluirmos por entre as ondas alterosas ou sucumbirmos vítimas de algum “vírus informático”, contra o qual não estejamos imunizados.
Ora a palavra “capela” leva-nos até à cidade de Tours, na França, onde ficou famoso o milagre de S. Martinho, esse que nos dá a “benesse” de um rasgo de verão nos tempos de Outono (celebra-se a 11 de Novembro) e que para os poveiros lhes proporciona uns deliciosos magustos com a castanha aqui criada, produto dos seus ricos castanheiros.
Reza a lenda que este militar, que viveu em Tours, entre os séculos IV e V, encontrando um mendigo a tiritar de frio, em pleno Inverno, num dia gélido e chuvoso, se condoeu da sua miséria, cortando metade da sua capa para o agasalhar. O seu gesto de rara humanidade valeu-lha a resposta recompensadora da Divindade. O céu se abriu e o sol raiou, para por em evidência a brilhante sensibilidade do soldado. O povo, esse não mais esqueceu esta história, lenda ou milagre. Ainda que fosse mito…! “O mito é o nada que é tudo” no dizer de Fernando Pessoa.
Pois a verdade é que ao lugar onde se guardou através dos séculos até hoje a metade da “capa” de S. Martinho, foi dado o nome de “capela” (pequena capa) de capa+ela = capinha. Mais um fenómeno de evolução semântica. Afortunadamente, as novas terminologias aqui não tocaram em nada. Trata-se de um sufixo derivacional de valor semântico avaliativo (ela), diminutivo, tal como antes se dizia. Capela é agora, não a pequena capa, mas o lugar onde nos reunimos para praticar o culto e celebrar a fé.
“Paróquia” vem do grego e quer dizer “à volta da casa”. O prefixo grego “para” significa “á volta de” e a palavra grega “oiquia” significa “casa”. Quando surgem as primeiras paróquias, as povoações aglomeravam-se ao redor do edifício principal, em princípio, mais alto e central, que era a Igreja. Certamente que esta é uma concepção de paróquia rural e remonta à Idade Média. Mas continua a chamar-nos a atenção para a centralidade da vida cristã, que a palavra “paróquia”, na sua etimologia, continua a evocar.
Teologicamente, define-se Paróquia como “uma certa comunidade de fiéis constituída estavelmente na Igreja Particular, cuja cura pastoral, sob a autoridade do Bispo Diocesano, está confiada ao Pároco” (c.515 do C.I.C.)

sexta-feira, janeiro 12, 2007

Peripécias

Num dia de “fazer” do início de Setembro de 1960, logo pela manhã cedo, depois de substancial almoço e jonguidas as bacas, aí vou eu fazer a sementeira do centeio nas terras de lavradio de cultura de sequeiro.
Pendurado em cima do jugo, o arado leve e frágil, só utilizado nestas sementeiras por ser uma lavra terceira, numa terra já lavrada – na decrua e na estravessa.
Quase parecia um aradinho de brincar pela estreiteza das suas avecas e pela delgadez do seu tamão e da rabiça.
A relha era curta e, claro, não tinha cega.
Começo cedo e contente o trabalho perto da velha carreira do tiro.
As levandeiras e as milheiriças são aos bandos e eu armo as ratoeiras, que bem cedo começam caçada.
Pelas dez da manhã faço uma paragem curta. Dou um molho de canas às bacas.
Eu que tinha ido acompanhado de casa por uma miúda de pele achocolatada, que até pensava ser moira, deitei-me com ela em cima de um pano, descasquei-a e mordisquei-a delicada e suavemente, primeiro de um lado e depois do outro.
Apertou-me a gula e comi com vontade, como parva, não a moira que pensava ser, mas a chouriça que era, caseirinha da nossa “lavra”.
A meio da tarde e quando tudo tinha corrido tão bem, pega-se-me o ferro do arado a uma pedra subterrânea que estava fixa, e a força das bacas vencendo a resistência da madeira, partiram-no pela relha, acabando assim com a trabalho daquele dia.
Não sem que antes de regressar a casa, recolhesse mais de cinquenta passarinhos das armadilhas que tinha montado.
À minha espera em casa estava uma bôla de milho acabadinha de sair do forno, que parti aos bocadinhos e temperei com azeite e açúcar.
Este pitéu fez-me esquecer as agruras da perda do arado.

Tônho D’Adélia

quinta-feira, janeiro 11, 2007

PATRIMÓNIO ESPIRITUAL DA PÓVOA


O Passado no Presente

A Irmandade do Bom Jesus
No texto de 1758 decifrado pela Dr.ª Sara Loureiro e fruto de pesquisa de Celeste Gonçalinho, publicado neste blog, já se faz referência à existência de um Irmandade do Bom Jesus em Arneirós.
Ora a permanência de uma associação como a Irmandade do Bom Jesus, activa sem interrupção, desde o ano 1669 na nossa Paróquia, faz-nos reflectir sobre o segredo de tamanha perseverança e sobre a razão do entusiasmo que ainda hoje provoca nos seus associados, sejam simples irmãos, sejam membros da Mesa.
Apercebi-me de que, no momento presente, mais de 400 paroquianos estão inscritos; as quotas estão em dia; os encargos são cumpridos; e há sempre novas inscrições.
Da sua existência e actuação são visíveis anualmente a celebração da festa do Bom Jesus, no dia 1 de Janeiro; a missa semanal pelos irmãos vivos e defuntos, mandada celebrar pela Irmandade na Igreja Paroquial; as 10 missas por alma dos irmãos, quando falecem; e os ofícios de defuntos cantados na terceira semana da Quaresma.
O sino toca de forma diferente para informar quando um irmão falece, distinguindo-se ainda o sinal para homem e para mulher. As opas e a cruz são diferentes, quando a procissão acompanha um irmão ao cemitério.
A Póvoa conta também com um grupo de irmãos. Na sua capela, se celebram as missas a que têm direito os que pertenceram a esta Irmandade.
Ora, se as festas têm a sua interrupção, por vezes com largos anos sem se organizarem, se algumas associações civis têm duração limitada, e muitas delas desaparecem após poucos anos de vigência ou acabam por vegetar na inanidade, como se explica que esta Irmandade se mantém em pé desde 1669, com actividade, zelo e entusiasmo?
Esta constatação merece o meu louvor a todos os que passaram de geração em geração o testemunho e aos que na actualidade mantêm vivas a chama e o espírito sempre renovados de uma associação geradora de elos de ligação entre famílias e povos.
A fidelidade aos valores perenes, a persistência em salvaguardar os tesouros do seu património, seja ele material ou espiritual é uma prova de sabedoria. Amputar o passado ao presente é como arrancar as raízes das plantas, querendo utopicamente que estas continuem florescentes e viçosas.
No entanto, como a memória das origens muitas vezes se perde, é bom pôr a descoberto o seu embrião, pois nele está já a vida que um dia será dada à luz. Descobri nos arquivos do Paço episcopal o documento original com a criação desta Irmandade, de que guardo fotocópia.
Foi o papa Clemente X que a instituiu através de um texto legislativo com o nome de “bula”, que é uma manifestação escrita de sua vontade para que em Arneirós, em 1669, (o nome “Vila Nova de Souto d’El-Rei” começa apenas em 1769, cem anos depois) haja uma associação canónica, isto é uma associação de fiéis (os que têm fé em Cristo, do latim, “fideles”) dispostos a realizar uns determinados fins, religiosos, naturalmente.

a) Fins da Irmandade. Os actuais estatutos, em vigor, registam os seguintes:
- Promover o culto em honra do Bom Jesus.
- Sufragar as almas dos fiéis defuntos.
- Cuidar dos interesses morais dos Irmãos.
- Bem administrar os fundos da mesma Irmandade.

b) Bula da criação. Segue apenas o primeiro parágrafo. No último, está registada a data em que é erigida: 21 de Junho de 1669.
P.Assunção
PERIPÉCIAS


É uma terça-feira de Outubro do ano da graça de 1960.
Levanto-me ao romper da aurora, monjo a cabra Morinha, da qual retiro perto de três cortilhos de leite quentinho. Depois de passado por um coador, retiro uma porção, que migo com uma cabeça de uma sémea e como, como almoço.
Dou um molho de erva à cabra e à burra Russa e jongo as bacas. Trago a Ramalha e a Galante, junto-as, ponho-lhes as cornelheiras, depois as molhelhas e por cima delas o jugo. Aperto o apeiro com duas sôgas e ao centro do jugo coloco o tamoeiro. Feito isto, aponho-as ao carro com um bom chavelhão encaixado entre o jugo e o tamoeiro.
Depois de prantar no carro oito estadulhos curtos, trago a corda, o engaço e o forcado. Lá vou eu ao monte cortar uma carrada de urgueiras e sargaços que me hão-de aquecer no Inverno.
As bacas, não puxando arreiras mas sim direitinhas, em posições bem paralelas à cabeçalha, conhecem o caminho. Assim sendo, sento-me sossegado nas chêdas até chegar ao sítio.
Sete horas da manhã, já no sítio, enquanto as bacas jonguidas comem um bom molho de canas, começo a roçar o mato.
Pelas dez horas aperta-me a larica e, tendo ali à mão uma parva jeitosa, deito-a em cima de um pano com um ritual delicado e, deitado ao lado dela, satisfaço o meu apetite. Refira-se que a parva consta de um queijo de cabra e um bom naco de broa.
De seguida vão passando por ali carreiros e almocreves serranos, carregando mostos e vinhos, que me vão saciando a sede através de ancoretas ou bebendo directamente dos ôdres ou ainda dos tubos de cana colocados no cimo das pipas.
Janto quando o relógio de Magueija bate as doze badaladas do meio-dia.
Pelas duas da tarde tenho carga e volto para casa com uma boa carrada. Porém a meio caminho, começou a sair fumo entre as treitoiras e o eixo do carro. Valeu-me esfregar-lhe um bocado de unto que me sobrara do almoço – só por milagre não se incendiara toda a carga.
Chegado a casa, retemperei-me com um óptimo prato de milhos e uma falacha.
Para finalizar o dia, ainda fui pastorear o gado e, pegando em dois vencilhos e um engacinho, juntei um rico molho de cisco nas Tareijas.



Ass: Tonho D'Adélia

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Iniciado em 2005, este blogue cumpriu em parte, aquilo para que tinha sido inicialmente projetado. Com o decorrer do tempo e tal como n...