Aventura
Prometo não continuar, porém só por esta vez permiti-me, rapazes da Póvoa e da minha idade, que partilhe convosco – sim, porque de partilha se trata – algumas considerações sobre o meu avô, nado e criado ai na vossa “lavra”:
Este meu velho, que não teve como eu, a felicidade de ter avôs, soube como ninguém encarnar tal papel.
Tem para os netos, sempre um ar bonacheirão e dispõe-se a perdoar as minhas malandrices e traquinices com o pretexto de que sempre foi mais malandreco do que eu.
Já vos falei das minhas brincadeiras com ele, em férias na Póvoa, no carro dos Flinstons, enquanto muito miúdo; brincadeiras dizia, que já só muito remotamente alimentam o sentimento da minha nostalgia – hoje cresci, e as minhas brincadeiras são outras e delas falarei em próximos capítulos.
Já vos falei também das suas conversas comigo sobre a aventura da subida dos degraus do conhecimento, e do dever de humildade perante a certeza da nossa ignorância.
Hoje falo-vos do que ele me ensina sobre o valor e a arte das palavras, conforme a sua composição no texto escrito ou falado. Estas devem obedecer a cuidada composição, tal como as notas musicais para obter uma boa e melódica sinfonia.
Diz-me ele, que elas (as palavras) gostam de ser adornadas com “perfumes, pérolas e pedras preciosas”, como as noivas para os seus esposos.
Com sufixos e prefixos podem ser aumentadas ou amputadas, e cada sinal no texto faz derivar sua beleza ou valor, dando também ao texto falado, diferentes entoações e pausas.
Também os adjectivos enfeitam ou deformam o “ramalhete” das frases.
As palavras podem ser de ira ou de amor, de concórdia ou de discórdia, de paz ou de guerra; podem ser francas ou cínicas, verdadeiras ou falsas, de aproximação ou de afastamento, e mesmo de provocação.
Se o nosso tempo tem como primordial importância a comunicação, temos de nos exercitar no uso e aperfeiçoamento da língua, e portanto, no uso das palavras.
Para beleza e sentido do discurso, devem ser colocadas em casas próprias, e não em casas alheias, ou fora de casa; e requerem cuidados como as flores de um jardim.
Por vezes precisam mesmo de ser podadas e “levantadas”.
Este meu avô malandreco, fala muito em linguagem figurada, com metáforas e mais metáforas, mas já nos entendemos bem.
Em férias, prepara-me as refeições, o banho e lava-me a roupa; ensina-me o preço e o valor da liberdade, da lealdade e da solidariedade.
Eu ajudo-o com diligente prazer nas suas ocupações, e ouço-o com venerável atenção e respeito, nos seus ensinamentos ou nas suas divagações.
Como é bom ter um avô assim! É de pasmar, este avô!
Ass: Nuno costa e Avô