quarta-feira, novembro 07, 2007

Encosta-te a mim

Encosta-te a mim, nós já vivemos cem mil anos
encosta-te a mim, talvez eu esteja a exagerar
encosta-te a mim, dá cabo dos teus desenganos
não queiras ver quem eu não sou, deixa-me chegar.

Chegado da guerra, fiz tudo p´ra sobreviver em nome da terra,
no fundo p´ra te merecer
recebe-me bem, não desencantes os meus passos
faz de mim o teu herói, não quero adormecer.

Tudo o que eu vi, estou a partilhar contigo
o que não vivi, hei-de inventar contigo
sei que não sei, às vezes entender o teu olhar
mas quero-te bem, encosta-te a mim.

Encosta-te a mim, desatinamos tantas vezes
vizinha de mim, deixa ser meu o teu quintal
recebe esta pomba que não está armadilhada
foi comprada, foi roubada, seja como for.

Eu venho do nada porque arrasei o que não quis
em nome da estrada onde só quero ser feliz
enrosca-te a mim, vai desarmar a flor queimada
vai beijar o homem-bomba, quero adormecer.

Tudo o que eu vi, estou a partilhar contigo
o que não vivi, um dia hei-de inventar contigo
sei que não sei, às vezes entender o teu olhar
mas quero-te bem, encosta-te a mim.

segunda-feira, novembro 05, 2007

Criança sofre

Foi ontem, carago, lembro-me nitidamente! E porque houvera de não me lembrar, se o ontem é tão próximo; só um dia ou mesmo só um segundo antes do hoje.
Eram vésperas do dia quinze de Agosto e eu tinha sete aninhos, tendo hoje já sessenta e três anões, não sinónimo, mas antónimo dos mesmos aninhos.
Na minha cabeça fervilhava já a ideia de ir à festa da Senhora do Outeiro para ver e ouvir a banda passar, ver a procissão e o arraial, e comer borrego e cubinhos de arroz doce e aletria.
Tinha para estriar umas calças e umas botas brancas cardadas, com quatro voltas de cardas, como aquelas que usavam os magarefes do Bairral, pois se bem se lembram o Bairral era terra de magarefes; botinhas de paixão aquelas - dizia o meu pai!...
Sim, porque cá por mim, até preferia andar descalço do que saber que iria levar um pontapé no cu, de cada vez que tropeçando, topasse com as biqueiras daquelas botinhas numa qualquer pedra do caminho.
Minha mãe mandou-me que fosse cortar o cabelo na barbearia do Gabriel de Meijinhos - barbeiro moderno que já não cortava só à tesourada, pois tinha máquina manual de cortar cabelos; mandou-me no entanto que o cortasse curto para não ter de o cortar todas as semanas.
Sentado já eu, na confortável cadeira da barbearia, o senhor Gabriel perguntou-me como queria o corte; ao que respondi que a minha mãe me dissera para o cortar bastante curto.
Sendo assim, o senhor Gabriel com a sua máquina zero rapou-me o cabelo todo, e em menos de um minuto deixou-me em cima do pescoço aquilo que mais parecia uma cabaça do que uma cabeça.
Ao regressar à Póvoa e sem sequer ter ideia de como vinha – pois nem sequer tinha olhado para qualquer espelho – a minha mãe pregou-me o maior dos sermões e quase lhe deu ganas de ir comigo a Meijinhos exigir a reposição do cabelo cortado.
Porém, bem pior do que isso, foi quando o meu pai chegou a casa e me deu tareia por lhe aparecer assim naquele estado descabelado.
Sim, ao outro dia os meus pais lá me deixaram ir almoçar, de cabeça bem tapada com chapéu de pano – que ficou conhecido como o chapéu do piletas – à senhora do Outeiro em casa da minha avó. Porém enquanto eles viram passar a banda, foram à missa da festa e ao arraial, eu fiquei prisioneiro, fechado em casa da minha avó, por não ter cabeça apresentável quando precisasse de a descobrir para cumprimentar alguém.
Embora me mirasse e remirasse muitas vezes na água das poças, por não haver espelhos lá em casa, nunca percebi muito bem o espectáculo da minha cabecinha rapada, mas lá que sofri, sofri caraças !
Sofri quase um mês, até que o cabelo começasse novamente a dar sinais inequívocos de crescimento.

quinta-feira, novembro 01, 2007

PÓVOA, TERRA DE GENEROSIDADE

PÓVOA, TERRA DE GENEROSIDADE…

Se há epítetos que se ajustam a esta terra, um é o de “gente culta”. Mas não se esgota neste apanágio a sua caracterização. Estou em crer que outros se lhe podem atribuir, menos apelativos é certo, mas não menos surpreendentes. Um deles será o de “terra de generosidade”. Para quem escuta os anseios e reparte sonhos e vivências, semana a semana, nesta porção do povo de Deus, vai descobrindo com grande edificação a sua forma nobre e peculiar de estar na vida.
São ilações pessoais, decorrentes das obras que estão em curso sobre o tecto da nossa capela. No início, não havia uma terça parte sequer, do montante necessário. Hoje, nas minhas previsões, já só faltará uma terça parte. Isto porquê? Nem eu próprio sei explicar totalmente. Abrindo o Evangelho, detectamos com a passagem do óbolo da viúva, (a mulher vista por Cristo a deitar duas moedinhas no cofre do tesouro do templo): “Digo-vos na verdade que essa pobre viúva deitou mais que todos os outros, pois eles deitaram do que lhes sobejava para as ofertas de Deus, mas ela, na sua indigência, deitou tudo o que tinha para viver”(Lucas 21, 2-4).
Têm sido vários os donativos, à imagem do elogiado por Cristo no Evangelho. Alguns preferem ficar como anónimos. Mas no final tudo será divulgado, isto é, publicar-se-ão todas as receitas e despesas implicadas com o empreendimento.
A todos agradeço, mas para estes últimos, faltam-me as palavras: só Deus o poderá fazer com justiça.
Na minha perspectiva de responsável pela pastoral deste lugar, não posso também deixar de recordar as três dimensões da Igreja à qual pertencemos e nas quais somos chamados a cooperar: a catequética (de anúncio); a litúrgica (de louvor); e a sócio-caritativa (de partilha). Nesta pequena/grande obra, a da conservação e restauro da capela, estão todas as dimensões concretizadas. Apostamos em restaurar a catequese das pinturas, em continuar a louvar a Deus com um espaço condigno e a permitir que a dimensão social e caritativa da Igreja se manifeste. Mobilizados para a comunhão e partilha, dignificaremos o presente, mereceremos o passado e projectamos o futuro.
Cultura+Fé=Generosidade.
Cito o papa João Paulo II, quando em Fátima falava aos portugueses numa das suas visitas: “Fé que não se faz cultura é uma fé não plenamente acolhida, nem suficientemente reflectida, nem fielmente vivida”.
Se ele tivesse visitado a Póvoa, imagino-o a dizer: Se a cultura for iluminada pela fé, jamais acabará a generosidade.

Pe. Assunção

domingo, outubro 28, 2007

EDITORIAL DO ARAUTO D’EL-REI

Que herança deixar aos filhos?

Hoje na educação, tende-se a omitir princípios e normas de conduta e a incutir regras de vida e valores. Mas a educação continua a ser de “gravíssima importância”. Assim a qualificou um documento do Concílio Vaticano II.
A melhor herança que os pais podem e devem deixar aos filhos é uma boa educação, isto é, uma educação que seja integral. E esta não o será, se esquecer a dimensão mais profunda da pessoa humana: a sua dimensão espiritual e religiosa.
No começo de mais um ano de Pastoral, uma comunidade cristã, como a nossa paróquia, é interpelada a transmitir às novas gerações os valores base da existência. Não basta deixar casas, campos, dinheiros ou profissões. Tudo isto se pode desbaratar em pouco tempo. Apenas os valores humanos e divinos serão sempre os pontos de referência e orientação nos caminhos da vida.
Cristo não pode ser esquecido. Ele foi um consumado pedagogo, capaz até de reabilitar os marginais e excluídos para uma superior qualidade de vida. Razão tinha Pierre Charles, ao dizer: “Cristo antes de ter exigências, tem delicadezas”.

Pe. Assunção

sábado, outubro 27, 2007

OBRAS DA CAPELA

Estas são as primeiras imagens do inicio das obras de restauro do tecto da capela da Póvoa

Fig.1 – Vista geral sobre o tecto da nave da Capela


Fig.2 – Inicio da montagem do andaime









Fig.3 – Grandes lacunas

terça-feira, outubro 16, 2007

INICIO DAS OBRAS DE RESTAURO DO TECTO DA CAPELA




"A comissão de restauro da capela da Póvoa vem anunciar que as obras tiveram início no dia 15 de Outubro. O contrato de conservação e restauro estabelecido entre a Comissão Fabriqueira e a empresa especializada no restauro prevê a sua conclusão no próximo mês de Janeiro. Este património singular estava em risco, por isso, tomámos hoje mesmo e, com coragem, esta iniciativa. Não queremos que seja uma obra de alguém ou de alguns, antes a consideramos uma obra de todos. O futuro julgaria severamente a nossa incúria do presente. O adiar indefinidamente este projecto poderia tornar amanhã irrecuperável o que hoje ainda se pode salvar. Era urgente não deixarmos delapidar o "ex libris" da Póvoa. Contamos com a sua colaboração, o que muito agradecemos, na certeza porém de que, no final, todos ficaremos mais enriquecidos. A Comissão de restauro é constituída por dois elementos residentes na Póvoa (Sr.ªDª Lucília Alves e Sr.ª D.ª Celeste Venâncio Gonçalinho) e dois elementos a residir fora da Póvoa (o Sr. Jorge Venâncio e a Sr.ª D.ª CelesteGonçalinho Oliveira Duarte)

sábado, outubro 13, 2007

0S MEUS AMIGOS DA ALDEIA E AS NOSSAS BRINCADEIRAS

I
VOU ENTÃO DIZER QUEM ERAMOS
ESSE GRUPO TÃO FELIZ
O MAIS NOVO ERA O NECA
O MAIS VELHO O LUÍS
II
A SEGUIR VINHA UM OUTRO
E ÁS VEZES ERA UM DEMÓNIO
ESCUSADO SERÁ DIZER
POIS QUE ESSE ERA O ANTÓNIO
III
EU TAMBÉM POR SUA VEZ
SEMPRE COM MUITA ALEGRIA
LOGO PRONTO PRÁ ASNEIRA
POIS EU ERA O ZÉ MARIA
IV
UM BELO DIA ENTÃO
E QUANDO A NOITE CHEGOU
JÁ O LUÍS DIZIA
UM DE VÓS JÁ ME MIJOU
V
ELE ENTÃO PELA CALADA
POIS QUERER -SE -IA VINGAR
LÁ TIROU A ESCONDIDINHA
PARA A TODOS NOS MIJAR
VI
ERAM MUITAS AS BRINCADEIRAS
SÓ DE ALGUMAS VOU FALAR
DESDE CRIANÇAS A ADULTOS
SEMPRE ASNEIRAS ANDAR
VII
VOU FALAR DUMA VELHOTA
QUE ESTAVA SEMPRE NA CALHA
POR ALCUNHA LHE CHAMAVAM
POIS CLARO A PASCALHA
VIII
E ESTA MUITO SOFRERA
E NÓS DANDO Á TRAMELA
ERA QUASE A NOITE INTEIRA
COM PEDRINHAS PRÁ JANELA
IX
E ENTÃO LÁ VINHA ELA
Á PORTA MAS MUITO CEDO
NÓS MUDANDO DE LOCAL
COM PEDRINHAS PRÓ JANELO
X
DIZIA ELA ENTÃO
MAS QUE DIABO AQUI ANDA
E NÓS MUITO CALADINHOS
ESCONDIDOS NA VARANDA  
XI
OUTRAS VEZES ACONTECIA
DA MINHA CASA ENTÃO
ISTO JÁ DURANTE O DIA
À HORA DA REFEIÇÃO
XII
DUM JANELO QUE ELA TINHA
DUMA LOJA POIS ENTÃO
E DE LÁ COM UMA FISGA
ERA AREIA ATÉ MAIS NÃO
XIII
VOU DEIXÁ-LA EM SOSSEGO
E DOUTRAS ASNEIRAS FALAR
POIS DO RIO BALSEMÃO
ONDE NÓS IAMOS NADAR
XIV
NESTA ALTURA MAIS ADULTOS
MAS MALANDROS POIS ENTÃO
LANÇANDO PEDRAS AO RIO
PARA ARMAR A CONFUSÃO
XV
COM A CONFUSÃO LANÇADA
NÓS VESTIDOS E CALÇADOS
LÁ FUGIAM OS RABUDOS
POR MAIS DE QUANTOS LADOS  
XVI
ESTA PALAVRA RABUDOS
PODE CRIAR CONFUSÕES
ERAM OS DE LÁ DO RIO
E NÓS DE CÁ OS SARDÕES
XVII
F UGINDO POR TODO LADO
ERA ENTÃO A DEBANDADA
NÓS CORRENDO ATRÁS DELES
SEMPRE, SEMPRE Á CALHOADA
XVIII
E UM DIA ACONTECEU
PASSAR UM PRO NOSSO LADO
LEVOU TANTA PORRADA
QUASE FICOU DESMAIADO
XIX
TUDO ISTO ERA PASSADO
PARA QUE NÃO HAJA ENGANO
NAQUELE FATÍDICO RIO
SÓ NO POÇO MARIANO
XX
NOUTRAS QUERIA FALAR
MAS NÃO REVELO SEGREDOS
NA ALTURA SE SOUBESSEM
SE CALHAR IAMOS PRESOS  
XXI
E ENTÃO VOU TERMINAR
COM SAUDADES POIS ENTÃO
MEUS AMIGOS ATÉ SEMPRE
COM UM XI DO CORAÇÃO

JOSÉ M.O.VENÂNCIO

Reativar este blog

Iniciado em 2005, este blogue cumpriu em parte, aquilo para que tinha sido inicialmente projetado. Com o decorrer do tempo e tal como n...